Campanha alerta organizações ambientais sobre ameaça de garimpo a santuário das árvores gigantes na Amazônia


Árvore Angelim vermelho pode alcançar mais de 80 metros de altura
Rafael Aleixo/g1
A campanha “Proteja as Árvores Gigantes”, liderada pelo instituto O Mundo Que Queremos, em parceria com outras 20 organizações ambientais e pesquisadores, elaborou uma nota técnica e encaminhou a órgãos ambientais estaduais e federais, alertando sobre as crescentes ameaças à região e cobrando a adoção urgente de medidas efetivas de proteção.
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“Não basta o parque existir no papel. É preciso assegurar a presença efetiva do Estado e garantir que a unidade de conservação cumpra sua função socioambiental, que é proteger de forma integral as árvores gigantes. A COP30 será a grande vitrine do Brasil para o mundo, e não podemos correr o risco de exibir um santuário que simboliza a grandeza da biodiversidade amazônica enquanto a floresta continua ameaçada”, afirmou a articuladora da campanha e diretora-executiva da Rede Pró-UC, Angela Kuczach.
Descobertas em 2022 a partir de uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) conduzida em parceria com diversas instituições nacionais e internacionais, essas árvores centenárias – entre 400 e 600 anos – correm o risco de desaparecer antes mesmo de serem estudadas pela ciência e apresentadas ao mundo.
A campanha “Proteja as Árvores Gigantes” tem mobilizado a sociedade civil e pressionado o Poder Público em defesa das árvores monumentais. Suas ações contribuíram para avanços importantes, como o cancelamento de cerca de 500 Cadastros Ambientais Rurais (CARs) ilegais pelo Governo do Pará, enfraquecendo a grilagem, e a criação, em setembro de 2024, do Parque Estadual das Árvores Gigantes da Amazônia.
O novo parque foi desmembrado da Floresta Estadual do Paru (Flota Paru), uma das maiores unidades de conservação de uso sustentável do mundo, mas que não oferecia proteção adequada às árvores.
Angelim Vermelho de 88 metros é descoberto entre Pará e Amapá
Parque continua sem proteção
De acordo com a campanha “Proteja as Árvores Gigantes”, as 20 maiores árvores já registradas na Amazônia e na América Latina – todas da espécie angelim-vermelho (Dinizia excelsa), com alturas entre 70 e 88 metros – permanecem ameaçadas pelo garimpo ilegal, desmatamento e grilagem de terras.
Apesar da nova categoria garantir proteção integral conforme o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), o Parque ainda enfrenta falhas significativas na fiscalização e gestão, colocando em risco a preservação dessas espécies e do ecossistema único onde vivem.
A gestão do Parque está sob responsabilidade do Ideflor-Bio, órgão estadual encarregado das Unidades de Conservação do Pará. O gestor do Parque é responsável também por outras três UCs.
Garimpo ilegal e desmatamento
O documento elaborado pela campanha alerta que o Parque Estadual das Árvores Gigantes, no Pará, está sendo pressionado pelo garimpo ilegal. Durante a consulta pública para sua criação, garimpeiros locais chegaram a se manifestar contra a implantação da unidade de conservação.
Embora não se tenha dados oficiais que confirmem a presença de garimpos dentro dos limites do parque, moradores do entorno relatam sinais da atividade clandestina, como a coloração anômala da água de igarapés e o surgimento de clareiras recentes na floresta. A situação reforça a necessidade de investigações em campo e da análise de imagens de satélite para comprovar a extensão do problema.
Floresta Estadual do Paru (Flota Paru)
Ideflor-Bio / Divulgação
O desmatamento ilegal ou autorizado também avança sob o santuário. A Flota do Paru, vizinha ao parque estadual das Árvores Gigantes, possui um histórico preocupante na perda de vegetação nativa: segundo o INPE, até 2023, cerca de 13 mil hectares foram desmatados. Em outubro de 2022, a unidade de conservação foi a quinta mais desmatada de toda a Amazônia.
Nos últimos anos, a região recebeu poucas ações de fiscalização. Segundo o próprio Governo do Amapá, a mais recente aconteceu no município de Laranjal do Jari, em novembro de 2024, quando a Polícia Civil do estado apreendeu uma aeronave e interditou um aeródromo utilizado, de acordo com as investigações, como base de apoio e logística para garimpos ilegais situados no estado do Pará.
Valor científico e climático
Essas árvores são verdadeiros arquivos vivos da história climática e ecológica da Amazônia, registrando em seus anéis de crescimento informações sobre secas, cheias, estoques de carbono e mudanças atmosféricas. Uma única árvore de grande porte pode acumular até 80% de toda a biomassa de carbono de um hectare, segundo os pesquisadores.
A pesquisa que levou à descoberta utilizou tecnologias avançadas de sensoriamento remoto e mais de 900 sobrevoos na região, mas apenas 1% da floresta amazônica foi mapeada para a presença dessas árvores, indicando que muitos exemplares podem ter sido derrubados antes de serem identificados.
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